Chamada para o Dossiê "Tradução poética como prática decolonial" (v. 23 n. 51, 2027)
Chamada para o Dossiê "Tradução poética como prática decolonial" (v. 23 n. 51, 2027)
Organizadores:
Diana Junkes (UFSCar/CNPq)
Júlio Reis Jatobá (Universidade de Macau)
O objetivo deste dossiê é reunir contribuições teórico-críticas e/ou análises literárias que se debrucem sobre a tradução e, mais especificamente, a tradução de poesia, como um gesto político, a partir do qual estética e ética se amalgamam e assumem a necessidade de repensar a prática tradutória a partir do ponto de vista da decolonialidade, na esteira do que propõe, entre outros, Bonaventure Soh Bejeng Ndikung, em Disothering as Method , a assumir a importância de incorporar cosmovisões dos povos originários, afrodiaspóricas e outras culturas não brancas e que, no Brasil, vem sendo aprofundada, com significativa contribuição por Márcio Seligmann-Silva.
Pensando a partir de Haroldo de Campos, a tradução de poesia é antes de tudo uma vivência íntima do universo traduzido, mas ao contrário do que proporia o poeta, não se a toma aqui como operação luciferina, tampouco como um gesto angelical, para situarmos a perspectiva benjaminiana. Outrossim, a intimidade do corpo do original com a qual passa a conviver o tradutor, como que penetrando a pele do texto, os poros do poema, reivindica um profundo diálogo, marcado pelo convívio entre culturas e línguas diversas, que se encontram e se resolvem, se dissolvem, dialeticamente, no texto de chegada e não se perdem do texto de partida.
Sem se circunscrever às formulações produzidas no Brasil ou às experiências de tradução de poesia amplamente abordadas, o dossiê pretende acolher reflexões que tragam para o centro do debate outros modos de pensar, fazer, ler e viver a tradução de poesia. Embora a crítica de Zhang Longxi à miopia eurocêntrica em relação as literaturas periféricas e ao estabelecimento da literatura ocidental como “modelo literário universal” não se filie diretamente à tradição decolonial latino-americana, sua reflexão sobre a literatura-mundo como descoberta oferece um ponto de inflexão decisivo para esse debate. Ao defender a expansão do cânone literário mundial, Zhang chama a atenção para o fato de que cada tradição possui formas próprias de crítica, memória e avaliação estética, que não devem ser submetidas a parâmetros externos, sobretudo aos critérios historicamente constituídos pela hegemonia ocidental, no que, de algum modo, encontra, com as devidas limitações, a proposta haroldiana de transcriação e revisão do cânone. A tarefa de ampliar o cânone literário mundial, assim, não visaria apenas incorporar também obras não europeias, mas de reconhecer o Outro e a nós mesmos a partir da escuta das tradições que as constituíram e das vozes que lhes atribuem valor em seus próprios contextos históricos e culturais.
Desse modo, o dossiê propõe compreender a tradução de poesia como um trabalho de (re)/(trans)criação do poema e dos mundos, arquivos, cânones e regimes de (in)visibilidade que regulam a circulação de literaturas por meio da tradução e transcriação. O dossiê convida, assim, contribuições teórico-críticas e análises literárias que investiguem a tradução de poesia como prática estética, ética e política de descolonização. Serão particularmente bem-vindos trabalhos que abordem, entre outros temas:
- poéticas e epistemologias da tradução provenientes de tradições indígenas, africanas, afro-diaspóricas, asiáticas, árabes, e de outras culturas subalternizadas;
- tradução, cânone, antologia, arquivo, circulação literária e literatura-mundo;
- relações Sul-Sul, intercâmbios transoceânicos, transdiásporicos e outras cartografias não hegemónicas da tradução;
- tradução entre Brasil, África, Ásia, América Latina, mundo árabe e outros espaços historicamente situados;
- antropofagia, transcriação, tradução-canibal, tradução coletiva e outras práticas de recriação;
- tradução de oralidades, cantos, performances, poesia visual, poesia experimental e outras formas poéticas;
- corpo, género, sexualidade, racialização, censura, (auto)censura e silenciamento na tradução de poesia;
- o lugar ético e político do tradutor na construção de novos mundos possíveis.






