Chamada para o Dossiê "Motivos fúnebres na poesia contemporânea" (v. 23 n. 50, 2027)
Chamada para o Dossiê "Motivos fúnebres na poesia contemporânea" (v. 23 n. 50, 2027)
Organizadores:
Fadul Moura (Universidade Federal de Minas Gerais)
Joana Meirim (Universidade NOVA de Lisboa)
Rodrigo Barbosa (Universidade Federal de Lavras)
A observação do circuito de publicações português e brasileiro dos últimos anos desperta nossa atenção para o fato de que autores e autoras com estilos e projetos poéticos muito diferentes vêm se dedicando à elaboração criativa de elementos fúnebres. Em Portugal, Jorge Sousa Braga, em O Novíssimo Testamento e Outros Poemas (2012), guia-nos até à morada fúnebre, o cemitério: “Quem passa o portão de ferro / do lado esquerdo estão os teus pais / e alguns irmãos No talhão de / cima a minha avó e tu / numa sepultura simples”; Inês Dias, por sua vez, escolhe a casa como emblema do luto presente e futuro em Em caso de tempestade este jardim será encerrado (2011); já Manuel de Freitas renova um topos antigo ao concebê-lo como orientador de sua proposta em Ubi sunt (2014). No Brasil, Natália Agra deposita em Noite de São João (2020) um poema chamado sugestivamente de “Epitáfio”, texto que, longe de funcionar como uma celebração aos mortos, profere: “destruam logo esta casa,/ está cheia de fantasmas”; Marília Garcia empresta de Emmanuel Hocquard um novo conceito de elegia, dedicado não mais a “choramingar”, mas a “invoca[r] a memória / para trazer algum elemento para o presente” em Expedição: nebulosa (2023); por fim, Mariana Godoy estabelece um jogo entre as palavras inglesas “dead” e “daddy”, simulando no corpo do poema um tipo de ato falho que expõe a dor da perda do pai em Holograma (2023).
Em Que emoção! que emoção?, Georges Didi-Huberman (2016) observa que “as imagens transmitem, e ao mesmo tempo transformam, os gestos emotivos mais imemoriais”. No caso específico de elementos fúnebres, o conjunto das imagens acima demonstra uma inclinação da poesia do presente para tradições antigas – sem que, com isso, sejam reduzidas à replicação de fórmulas. Elegias, epitáfios e epigramas são estratégias clássicas de elaboração da perda. No entanto, quando retomadas por poetas do século XXI, não obedecem à mesma lógica operativa nem aos antigos princípios organizadores. A expressão de motivos fúnebres coloca em evidência que “o sentimento da morte, envolto, na intimidade dos seres, a todos os outros sentimentos, só pertence à consciência coletiva por uma espécie particular de fenômeno social”, como destaca Georges Duthuit (2009). Trata-se de uma estratégia que revela o luto como um trabalho dos vivos, forma pela qual podem instalar “um processo de interiorização do defunto”, segundo Françoise Dastur (2002). Quando elementos fúnebres são elaborados pela via estética da poesia contemporânea, simultaneamente transmitem e transformam o quadro geral dos gêneros e dos topoi literários, dando-lhes novas dicções históricas. Ora mergulhando no domínio íntimo ou familiar, como nos livros finais de Adília Lopes, ora realizando um salto para dimensões coletivas, como na obra poético-imagética de Leila Danziger, as expressões poéticas do luto demonstram um solo fértil para debate.
Diante do exposto, a presente chamada acolherá trabalhos dedicados a explorar formalizações estéticas do luto no contexto da produção poética brasileira e portuguesa dos últimos 25 anos. Essas poderão ter como norte algumas linhas a seguir:
- Luto e história na poesia e nas artes;
- Dramas interiores: dinâmicas subjetivas;
- Gêneros e matérias fúnebres: atualizações;
- Presenças espectrais, retornos intempestivos;
- O luto na poesia: lamentação, consolação e reflexão.
Datas para submissões: de 01/06/2026 a 30/09/2026
Publicação: janeiro de 2027






